Pedro casa com Maria Monforte
Mas Afonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas que Pedro não jantava em Benfica. De manhã, se
o via, era um momento, quando ele descia ao almoço, já com uma
luva calçada, apressado e radiante, gritando para dentro se estava
selado o cavalo; depois, mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a correr «se o papá queria alguma coisa», dava um jeito
ao bigode diante do grande espelho de Veneza sobre o fogão, e lá
partia, enlevado. Outras vezes todo o dia não saía do quarto: a
tarde descia, acendiam-se as luzes; até que o pai, inquieto, subia,
ia encontrá-lo estirado sobre o leito, com a cabeça enterrada nos
braços.
— Que tens tu? — perguntava-lhe.
— Enxaqueca — respondia num tom surdo e rouco.
E Afonso des c ia  indignado,  vendo em  toda aquela angús t ia
cobarde alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa oferecida
que não fora posta nos cabelos... (...)
No Verão, Pedro partiu para Sintra; Afonso soube que os Monfortes tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Vilaça apareceu
em Benfica, muito preocupado: na véspera Pedro visitara-o no cartório, pedira-lhe informações sobre as suas propriedades, sobre o
Os Maias Eça de Queirós
22© Porto Editora
Biblioteca Digital  Colecção CLÁSSICOS DA LITERATURA PORTUGUESA 
meio de levantar dinheiro. Ele lá lhe dissera que em Setembro,
chegando à sua maioridade, tinha a legítima da mamã...

— Mas não gostei disto, meu senhor, não gostei disto...
— E porquê, Vilaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar
presentes à criatura... O amor é um luxo caro, Vilaça.
— Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça!
E aquela confiança tão nobre de Afonso da Maia no orgulho
patrício, nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquilizar Vilaça.
Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. (...)

O Outono passou, chegou o Inverno, frigidíssimo. Uma manhã,
Pedro entrou na livraria onde o pai estava lendo junto ao fogão;
recebeu-lhe a bênção, passou um momento os olhos por um jornal
aberto, e voltando-se bruscamente para ele:
— Meu pai — disse, esforçando-se por ser claro e decidido —
venho pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama
Maria Monforte.
Afonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e numa voz grave
e lenta:

— Não me  t inhas   falado di s so. . .  Creio que é a  f i lha de um
assassino, de um negreiro, a quem chamam também a negreira...
— Meu pai!...
Afonso ergueu-se diante dele, rígido e inexorável como a encarnação mesma da honra doméstica.
— Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a
tremer, quase em soluços:
— Pois pode estar certo, meu pai, que hei-de casar!
Saiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou
pelo escudeiro, muito alto para que o pai ouvisse, e deu-lhe ordem
para levar as suas malas ao Hotel Europa.

Dois dias depois Vilaça entrou em Benfica, com as lágrimas nos
o l h o s ,   c o n t a n d o   q u e   o   m e n i n o   c a s a r a   n e s s a   m a d r u g a d a   —   e
segundo lhe dissera o Sérgio, procurador do Monforte, ia partir com
a noiva para a Itália.

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