Nascimento dos filhos
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PEDRO e Maria, no entanto, numa felicidade de novela, iam
descendo a Itália, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, nessa
via sagrada que vai desde as flores e das messes da planície lombarda até ao mole país de romanza, Nápoles, branca sob o azul.
(...)
Foram para França.

(...)
E quando ela apareceu grávida,
a n s i o u   p o r   a   t i r a r   d a q u e l e   P a r i s   b a t a l h a d o r   e   f a s c i n a n t e ,   v i r
abrigá-la na pacata Lisboa adormecida ao sol.
Antes de partir, porém, escreveu ao pai.
Fora um conselho, quase uma exigência de Maria. A recusa de
Afonso da Maia ao princípio desesperara-a.

(...)
— Diz-lhe que já o adoro — murmurava ela curvada sobre a
escrivaninha acariciando os cabelos de Pedro. — Diz-lhe que se
tiver um pequeno lhe hei-de pôr o nome dele... Escreve-lhe uma
carta bonita, hem!
E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapaz
amava-o. Falou-lhe comovido da esperança de ter um filho varão;
a s   d e s i n t e l i g ê n c i a s   d e v i am  f i n d a r   em  t o r n o   d o   b e r ç o   d a q u e l e
pequeno Maia que ali vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua felicidade com uma efusão de namorado indiscreto: a
história da bondade de Maria, das suas graças, da sua instrução,
enchia duas páginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tardaria uma hora em ir atirar-se aos seus pés...

Com efeito, apenas desembarcou, correu num trem a Benfica.
Dois dias antes o pai partira para Santa Olávia: isto pareceu-lhe
uma desfeita — e feriu-o acerbamente.
F e z - s e   e n t ã o   e n t r e   o   p a i   e   o   f i l h o   u m a   g r a n d e   s e p a r a ç ã o .
Quando lhe nasceu uma filha Pedro não lho participou — dizendo dramaticamente ao Vilaça «que já não tinha pai!» Era uma linda
bebé, muito gorda, loura e cor-de-rosa, com os belos olhos negros
dos Maias. Apesar dos desejos de Pedro, Maria não a quis criar;
mas adorava-a com frenesi; passava dias de joelhos ao pé do berço,
em êxtase, correndo as suas mãos cheias de pedrarias pelas carninhas tenras, pondo-lhe beijos de devota nos pezinhos, nas rosquinhas  das   coxas ,  balbuc iando- lhe num enlevo nomes  de grande
amor, e perfumando-a já, enchendo-a já de laçarotes.

(...)
Começara então uma existência festiva e luxuosa...

Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do
valor de propriedades!... Podia fazê-lo! O marido era rico, e ela sem
escrúpulo arruiná-lo-ia, a ele e ao papá Monforte... (...)

Quando, porém, Maria teve outro filho, um pequeno, o sossego
que então se fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente, ao
coração de Pedro, a imagem do pai abandonado naquela tristeza do
Douro. Falou a Maria de reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua alegria foi grande quando Maria,
depois de ficar um momento pensativa, respondeu:
— Creio que me havia de fazer feliz tê-lo aqui...
Pedro, entusiasmado com um assentimento tão inesperado,
pensou em abalar  para Santa Olávia.  Mas  ela  t inha um plano
melhor: Afonso, segundo dizia o Vilaça, devia recolher em breve a
Benfica; pois bem, ela iria lá com o pequeno, toda vestida de preto,
e de repente, atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-ia a bênção para o
seu neto! Não podia falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu ali
uma alta inspiração de maternidade...

Para abrandar desde já o papá, Pedro quis dar ao pequeno o
nome de Afonso. Mas nisso Maria não consentiu. Andava lendo
uma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipe
Carlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças,
queria dar esse nome a seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal
nome parecia-lhe conter todo um destino de amores e façanhas.



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