Infidelidade e fuga de Maria Monforte
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Nessa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu
carruagens parando à porta, um grande rumor encher a escada;
quase imediatamente Pedro aparecia-lhe trémulo e enfiado:
— Uma grande desgraça, Maria!
— Jesus!
— Feri o rapaz, feri o napolitano!...
— Como?
Um desastre estúpido!... Ao saltar um barranco, a espingarda
disparara-se-lhe, e a carga, zás, vai cravar-se no napolitano
(...)
Logo de manhã cedo — apenas Pedro saíra a fazer transportar,
ele mesmo, do hotel, as bagagens do napolitano — Maria mandou a
sua criada francesa de quarto, uma bela moça de Arles, acima,
saber da parte dela como Sua Alteza passara, e «ver que figura
tinha». A arlesiana apareceu, com os olhos brilhantes, a dizer à
senhora, nos seus grandes gestos de provençal, que nunca vira um
homem  tão  formoso!  Era uma pintura de Nos so Senhor  Jesus
Cr i s to!  Que pes coço,  que brancura de mármore!

(...)
Daí a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quis recolher
ao seu hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade, mandou-lhe um admirável ramo ...

(...)
Depois, na soirée do baptizado Carlos Eduardo, dada daí a uma
semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um
homem esplêndido, feito como um Apolo, de uma palidez de mármore rico: a sua barba curta e frisada, os seus longos cabelos castanhos, cabelos de mulher, ondeados e com reflexos de oiro, apartados
à nazarena — davam-lhe realmente, como dizia a arlesiana, uma
fisionomia de belo Cristo.

Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco taciturno e orgulhoso: mas tudo nele fascinava, a
sua figura, o seu mistério, até o seu nome de Tancredo.

(...)
Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha então
dois anos e estava realmente adorável; vinha todas as noites um
momento à sala, vestida com um luxo de princesa; e as exclamações,
os êxtases de Tancredo não findavam! Fizera-lhe o retrato a carvão, a esfuminho, a aguarela; ajoelhava-se para lhe beijar a mãozinha
cor-de-rosa, como ao bambino sagrado. E Maria, agora, apesar dos
protestos de Pedro, dormia sempre com ela entre os braços.



Ao começo desse Setembro o velho Monforte partiu para os
Pirenéus. Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como se
ele largasse de novo para as travessias de África.
Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro voltou a falar da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir a
Benfica recuperar para sempre aquele papá tão teimoso...
— Ainda não — disse ela reflectindo, olhando o seu cálice de
Bordéus. — Teu pai é uma espécie de santo, ainda o não merecemos... Mais para o Inverno.

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