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 Gênese dos Heterónimos

Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro. Caixa Postal 14

Lisboa, 13 de laneiro de 1935

MEU PREZADO CAMARADA:                     
Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e in­tegralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe des­culpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.
(...)
Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mun­do fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existi­ram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que cha­mo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimen­tos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventu­ra abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.
Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterô­nimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival de Chevalíer de Pas... Coisas que acontecem a todas a.~ crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto .as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esfor­ço para me fazer saber que não foram realidades.
    Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve vá­rias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria­-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imedia­tamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura -— cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a pçrto de trinta anos de distância, oiço, sinto, veio. Repito: oiço, sinto, ....... E tenho saudades deles.

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